What's next?
Separação
A cerimônia havia terminado, mas o peso das palavras dos anciões ainda pairava no ar como neblina densa. O portão da selva fora aberto. Além dele, apenas a floresta imensa, viva e silenciosa.
Os jovens se entreolhavam, alguns em silêncio, outros sussurrando com ansiedade, enquanto decidiam com quem seguiriam pelos seus Dias da Fera. Não havia regras. Só uma escolha: confiar… ou tentar sobreviver sozinho.
Um dos tambores cerimoniais soou, carregado por um Golias cego, soou três vezes — surdos, profundos, como batidas do coração da própria terra.
Grupos se formavam de forma quase instintiva: amigos de infância, aliados por treinamento, pactos secretos feitos sob o luar ou pura conveniência.
Mas Solenne, parada ao lado da imensa porta de madeira, apenas cruzou os braços e observou tudo como quem espera uma piada ruim terminar.
— Sério, tem gente ali com cara de que vai morrer só de carregar o próprio saco de dormir — comentou, num tom quase divertido.
Clare, ao lado, deu uma risada alta.
— Pelo menos morrem estilosos. Dá pra pendurar o corpo e assustar os animais.
Kaelos fazia malabarismos com três pedrinhas que encontrara no chão, tentando não parecer nervoso — e falhando.
— Ei, se eu conseguir fazer dez voltas com isso, significa que a floresta me aceita?
Nayra, sentada ao lado de uma árvore, levantou os olhos devagar.
— Significa que você está suando mais do que nos treinos em Tessália.
— É o charme, Nay. É meu plano secreto pra espantar predadores — rebateu ele, rindo.
Elizabeth, que observava discretamente todos ao redor, falou com gentileza:
— Algumas dessas pessoas vão tentar nos sabotar. A floresta não testa só o corpo… testa o coração.
Lorian, de pé com os braços cruzados, respondeu baixo, mas firme:
— Então é melhor andarmos com quem não vai nos apunhalar pelas costas.
Solenne sorriu e apontou o polegar para trás, na direção da mata.
— Ótimo. Hora de morrer bonito, então. Vamos, meus belos malditos.
Sem se despedir de mais ninguém, os seis caminharam juntos. Quando cruzaram o portão, não olharam para trás. Alguns riam. Outros estavam calados. Mas todos sabiam — aquele momento era um selo.
Eram um grupo estranho, improvável. Mas firme.
Solenne ia na frente, abrindo caminho com segurança e sarcasmo.
Clare caminhava ao seu lado, brincando com cada coisa que via — um galho torto, um som estranho, até o cheiro da terra.
Nayra, ligeiramente atrás, mantinha os olhos atentos a cada sombra, cada detalhe.
Kaelos tentava levantar o ânimo de todos, mesmo quando a tensão crescia.
Lorian era o muro silencioso que cuidava da retaguarda, olhando para os lados com olhos que pareciam sempre à beira de estourar em fúria.
Elizabeth andava no centro, sempre em equilíbrio, como se sua simples presença segurasse os outros em paz.
Quando o sol começou a baixar, e o som dos outros grupos já não se ouvia mais, Clare quebrou o silêncio:
— Aposto um beijo de Solenne que os primeiros corpos vão aparecer em três dias.
Solenne nem virou o rosto.
— Se forem do nosso grupo, você beija o cadáver, então.
Kaelos riu mas o riso sumiu tão rápido quanto veio. Lá, no fundo, todos sabiam: não importava o quanto zombassem, riam ou provoquem. O tempo já começou a correr.
A lua cheia virá Doze vezes. Depois dela, o eclipse cairá como uma sentença.
Os Anciões diziam que a floresta se dobrava para testar cada um de forma diferente E a selva, que tudo marca, já observava os seis — pronta para esculpir neles as histórias que os anciões um dia lerão.
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